Publicada em 05/04/2018

Lia Barroso: Presidente da Comissão de Proteção aos Direitos da Mulher

Seccional

A trajetória de Lia Barroso é uma daquelas histórias que preencheriam edições inteiras de enciclopédias. Uma dezena de volumes talvez não fosse suficiente para dar conta de tudo o que viveu esta advogada que hoje preside a Comissão Estadual de Proteção ao Direito da Mulher da OAB-BA. Ao mesmo tempo, a vida de Lia Barroso pode ser resumida a uma única palavra: obstinação.

O êxito profissional do presente, com escritórios em dois estados atendendo clientes de peso, contrasta com a infância difícil vivida no Recôncavo Baiano. Oriunda da zona rural de Santo Antônio de Jesus, aos 12 anos Lia Barroso, primogênita de uma família pobre, ficou órfã de pai. 

Ela relembra que o sustento da casa vinha da pequena lavoura cultivada pelo pai. Aquilo era tudo o que a família tinha e com a morte do patriarca, ela, a mãe e as duas irmãs mais novas precisaram labutar pra sobreviver. “Não era fácil. Às vezes, nem eu mesma acredito que passei por tudo isso".

Apesar de toda a aridez que se impunha, a semente da superação teimava em germinar no sentimento daquela criança. Os estudos forneceram os insumos necessários para que ela cortasse a linha da pobreza e realizasse o sonho de ser advogada.

Para chegar ao Colégio Francisco da Conceição Menezes, onde concluiu o ginásio, Lia caminhava seis quilômetros no chão de lama. “Tinha que ir de sandália e só calçar o sapato da escola na cidade”, relembra.

Na casa sem nenhum conforto, se dedicava ao que aprendera na sala de aula visando algo além do que a realidade lhe oferecia. “As mulheres que conseguiam chegar longe viravam professoras. Mas eu queria ser advogada. Desde criança que queria ser advogada e lutei por isso”.

Mudança para capital
Com essa determinação que Deus lhe deu, Lia, então com 16 anos, mudou-se para Salvador para dar continuidade aos estudos. Na capital, foi morar em pensão, trabalhava durante todo o dia pra poder se sustentar e à noite ia pro Colégio Central.

“Lá serviam uma merenda que era a minha salvação porque eu não tinha dinheiro pra fazer lanche. Saia do colégio às 23h, retornava para pensão, para no outro dia fazer tudo novamente”.  Essa era a rotina da estudante, em meados dos anos 1970, de segunda a sábado.

O interesse e a simpatia de Lia chamou atenção de professores e colegas, que enxergaram o potencial daquela jovem e resolveram alimentar aquele sonho. Os mestres sempre encontravam maneiras mais didáticas de passar a matéria, indicavam livros, enquanto os colegas mais abastados até emprestavam seus cartões de acesso aos cursinhos pré-vestibulares nos finais de semana.

"Meus colegas 'filhinhos de papai' (faz questão de ressaltar as aspas) que faziam cursinho, nos finais de semana enrolavam e não queriam ir. Eles então me emprestavam os cartões e eu assistia aula no lugar deles”. Assim, Lia foi aprovada nos vestibulares de Direito da Ufba e da Católica, decidindo pelo curso na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia.

Vida universitária 
Com o ingresso na Faculdade de Direito, um novo mundo se abriu. Por necessidade, mas também por querer absorver tudo o que aquele rico ambiente poderia lhe oferecer, Lia tornou-se acadêmica por inteira. Morou na residência universitária, participou dos movimentos estudantis e, em meio a esse turbilhão acadêmico, conheceu o jovem estudante de teatro Pedro Barroso, natural de Aracaju, com quem está casada há 40 anos.

Descobrir coisas novas era a maior diversão do jovem casal. Mesmo nos dias de folga, permaneciam no campus lendo Hegel, Máximo Gorki, Goethe, Kant, Nietzsche, Homero, Montesquieu, Silvio Romero, os filósofos gregos, os clássicos da literatura e da dramaturgia. “A gente comia livro. Nosso final de semana era pra ler e isso me tornou uma aluna e uma pessoa melhor”.

Maternidade
No segundo ano do curso, Lia foi surpreendida pela primeira gravidez. Naquele momento, para não perder a vaga na residência universitária, ela e Pedro tomaram a difícil decisão de viajar pra Aracaju e, após o nascimento da criança, entrega-la à mãe de Lia, que ainda morava em Santo Antônio de Jesus. Essa maratona custou um semestre da faculdade, porém, em nada diminuiu sua vontade de se tornar advogada.

A segunda gravidez veio no último ano da graduação. Mesmo grávida Lia conseguiu se formar e passar na concorrida seleção do mestrado em Direito Econômico da Ufba. A história mais uma vez se repetiu e ela precisou levar a criança para o interior. Ao longo do mestrado, vieram mais dois meninos. Hoje, os quatro filhos do casal: Abílio, Aquiles, Pedro Filho e Pavel são advogados com grandes serviços prestados à profissão e a OAB.

Regresso
Ao concluir o mestrado, Lia retornou à sua cidade natal. Em Santo Antônio de Jesus, ainda com bastante dificuldade, tomou uma decisão que ela considera um voo na sua vida: montar o próprio escritório. “Me tornei uma advogada reconhecida na cidade e sempre tive muitos clientes, mesmo tendo quatro filhos pra criar. No início da carreira, continuava pobre, com o tempo fui melhorando e venci na vida”.

Os afazeres profissionais e a ocupação com a família não a impediram de participar dos trabalhos da OAB. Lia ajudou a criar a subseção de Santo Antônio de Jesus e lá passou por praticamente todos os cargos. Chegou a presidir a subseção após uma vitória em um pleito que marcou a história da advocacia local. “Demos de goleada no então presidente. Foi um alarde. Até o prefeito da cidade foi para o rádio dizer que uma mulher havia batido num homem”, relembrou sorrindo.

Gestão atual
A experiência de quem participou de algumas das principais mudanças do campo jurídico no nosso estado dá a Lia Barroso segurança para afirmar que o ingresso de Luiz Viana na presidência da OAB-BA mudou o curso da advocacia baiana de modo admirável.

Lia, advogada que construiu sua carreira fora de Salvador, sabe bem o que era e o que se transformou a assistência ao advogado do interior. “Luiz Viana favoreceu os colegas que eram esquecidos. Direcionou a gestão também para os colegas do Interior. Eu vivi aquela realidade e sei. Luiz é próximo de todos, como deve ser. Porque ninguém é melhor do que ninguém”, afirmou. E completa: “o meu amor pela advocacia e pelo saber despontou na minha infância e assim permanece fortemente em minha vida”.

Mulheres da OAB-BA
Em reconhecimento à participação feminina nos trabalhos da OAB-BA, a seccional deu início a uma série de reportagens especiais contando um pouco da trajetória de vida de algumas dessas mulheres que integram a Diretoria Executiva, o Conselho Seccional, CAAB, Escola Superior de Advocacia e as diversas Comissões da Ordem. A cada semana, será publicado um perfil contando a história e a trajetória profissional dessas advogadas que têm se dedicado à luta em defesa do Direito, algo indispensável para a expansão da Justiça na sociedade.

Leia os textos já publicados
Ana Patrícia Dantas Leão: primeira vice-presidente da história da OAB-BA
Daniela de Andrade Borges: A Diretora Tesoureira
Dora Marcia Zalcbergas: A Presidente da Comissão do Idoso
Ilana Campos: A Conselheira Federal

Fotos: Angelino de Jesus (OAB-BA)

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